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[Mês da Criança] Carta do Autor

27 de setembro de 2018

A gente nasce envolto às palavras e tudo vira história quando a gente tira da memória uma lembrança. É o pai e a mãe brincando de soletrar pra gente repetir o nome deles, é o nome do Bob, do Rex, do Pimpão, que foram os meus primeiros cachorros. As palavras fazem a gente ser como somos: elas nos dão ordem, nos orientam, nos direcionam, nos derrubam, nos apontam e mostram, nos aconselham, nos representam, nos dão identidade. Algumas são inesquecíveis como escola, professora, livro, beijo, briga, felicidade, parabéns, brinquedo, amor, vovó, medo, fantasia, liberdade. As palavras estiveram comigo desde o primeiro olhar, quando eu ainda não reconhecia. As palavras é que dão o sentido do mundo. Sem palavras o mundo não conseguiria dar sentido nem ao silêncio.

Cresci num ambiente rico em fantasia, pobre em grana, mas cheio de uma primazia de palavras: meu pai e minha mãe me permitiram sempre, sempre, imaginar. Muito pobres, os poucos livros eram usados para eu brincar de reinventar as coisas, e por isso, Chapeuzinho Vermelho já foi pra mim uma alienígena, o Boi de Mamão era uma fruta que metia medo, o Lobo Mau era um velhinho que dizia que me colocaria num saco e levaria pelo mundo, o Capitão Caverna era um bicho peludo que podia esconder muitas coisas, mas quem sabe, também poderia desesconder. Cresci assim: brincando de trocar as coisas de lugar, sem medo de que, com o passar do tempo, eu perdesse a poesia de ser criança e de ser livre: esse guri, gosto de acordá-lo sempre para brincar com os adultos que tem vergonha de acordar os guris e gurias dentro deles.

Passada as dificuldades – perdi meus pais quando eu era adolescente – aprendi que poderia viver de palavras: escrevendo, compondo, falando, declamando, cantando, contanto historias, promovendo a poesia: A poesia de viver e se sentir o mais rico dos homens tendo dois tostões como dinheiro. Encarada a vida com magia, virei escritor, professor de literatura, contador de histórias, palestrante, pesquisador de literatura, estudante atrás de melhores maneiras para ressignificar homens e coisas, até entender que o mundo só se transforma pela literatura, pela educação, pela fé e pela determinação, e que pra fazer isso tudo girar, é necessário uma dose generosa de afeto. E é assim, com afeto, que conto um pouquinho de mim, e entrego pra você, algumas respostas neste livro que um menino muito curioso recebeu da vida para lhe ensinar a compartilhar sua poesia.

Com carinho,

Marinaldo Silva

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